Denúncia aponta quarto funcionário fantasma ligado ao deputado em um mês, segundo investigações da imprensa
Em mais um caso que levanta suspeitas sobre o uso indevido de cargos públicos, Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, emprega Ary Gustavo Soares, caseiro de sua fazenda em Serraria (PB), como assessor parlamentar.
Apesar de oficialmente atuar como secretário parlamentar, com dedicação exclusiva de 40 horas semanais, moradores e funcionários locais confirmam que Soares permanece durante a semana na propriedade rural do deputado.
Desde 2019, Ary recebe R$ 7,2 mil mensais entre salário e benefícios pagos pela Câmara. A legislação proíbe vínculos com outras atividades que conflitem com as funções parlamentares, restringindo o cargo a atividades legislativas.
Em visita ao local, a equipe da Folha de S.Paulo verificou, com vizinhos, ex-funcionários e técnicos agrícolas, que o caseiro administra a rotina da fazenda, dorme na sede e retorna para Patos apenas nos fins de semana.
Ary ainda atuou como representante da fazenda em um processo trabalhista envolvendo um ex-tratorista, que obteve R$ 18 mil na Justiça.
Testemunhos confirmam a atuação do caseiro
A entrada da propriedade é controlada por uma funcionária identificada como Maria, que confirmou à Folha que Ary estava presente no momento da apuração jornalística. Vizinhos reforçaram que qualquer assunto referente à fazenda é resolvido diretamente com ele.
Técnicos de extensão rural também relataram que o acesso de visitantes à fazenda depende da autorização do caseiro.
Cada deputado tem um orçamento mensal de R$ 133 mil para contratar entre 5 e 25 assessores, com salários que variam de R$ 1.584,10 a R$ 18.719,88. Conforme o Ato da Mesa 72/1997 e o site da Câmara, os secretários parlamentares devem exercer exclusivamente funções legislativas, em compatibilidade de horários e locais.
Embora o Ato da Mesa 24/2015 permita que assessores atuem nos Estados com jornada definida pelos deputados, essa flexibilização não autoriza envolvimento em atividades particulares.
Vínculos familiares com o poder
Nos fins de semana, Ary ainda atua como motorista de Hugo Motta, segundo relatos de políticos locais. O Ato da Mesa 58/2010 permite esse tipo de serviço desde que relacionado às atividades parlamentares, o que é contestado no caso.
A fazenda em questão foi comprada em março de 2023 por R$ 2,7 milhões, conforme revelou o portal UOL. O imóvel está em nome de uma empresa da esposa de Motta, Luana Motta, e de seus filhos, abrigando a Agropecuária Tapuio, que pertence ao deputado.
Outros parentes de Ary também estão ligados ao poder: sua esposa, Isabella Perônico, trabalha no gabinete da avó de Hugo Motta, com salário de R$ 14,3 mil. Já seu irmão, André Guedes, é superintendente da PatosPrev, ganhando R$ 13 mil. A nomeação foi feita por Nabor Wanderley, prefeito de Patos e pai do deputado.
Reincidência em casos de funcionários fantasmas
Esta é a quarta revelação envolvendo funcionários fantasmas ligados a Hugo Motta em um período de apenas um mês. Em julho, a Folha denunciou que três funcionárias do gabinete do deputado não exerciam as funções atribuídas. Após a repercussão, duas delas foram exoneradas, enquanto Louise Lacerda, filha e sobrinha de aliados de Motta, segue no cargo.
Na época, Hugo Motta declarou que “preza pelo cumprimento rigoroso das obrigações dos funcionários de seu gabinete, incluindo os que atuam de forma remota e são dispensados do ponto dentro das regras estabelecidas pela Câmara”.
PORTAL PARANATINGA – Matéria por Folha Destra – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

























